Bebidas energéticas podem levar a alcoolismo

Pesquisadora brasileira alerta para o risco de o consumo de energéticos aumentar o consumo de álcool

Peter Moon (reportagem de 2008)

Esta história começa em 1982, quando o executivo austríaco Dietrich Mateschitz, ao visitar a Tailândia, descobriu a Krating Daeng, uma bebida energética muito doce produzida pela empresa tailandesa T.C. Pharmaceuticals. A Krating Daeng era bastante consumida na Ásia por caminhoneiros, pois os ajudava a permanecer acordados ao dirigir à noite. A Krating Daeng, por sua vez, era baseado num energético japonês criado nos anos 1960, o Levitan, cujo ingrediente principal era a taurina, um estimulante mais potente que a cafeína. Mateschitz percebeu o potencial de lançar bebidas energéticas no Ocidente. Em 1984, criou o Red Bull, produto menos doce que o original asiático e que foi lançado no mercado alemão em 1987. Após conquistar a Europa, o Red Bull desembarcou nos Estados Unidos em 1997, onde hoje detém 50% de participação de mercado. Em 2006, mais de 3 bilhões de latinhas de Red Bull foram vendidas em todo o mundo - e Mateschitz ficou bilionário.

Agora a parte ruim da história. O público-alvo do Red Bull e de seus concorrentes são os jovens. Os energéticos fazem sucesso entre eles porque são estimulantes. Quando ingeridos juntamente com bebidas alcoólicas, tendem a mascarar a sensação de embriaguez, o que pode prolongar a balada. “Os jovens dizem que ficam mais espertos, menos sonolentos. Mas é uma sensação falsa, subjetiva”, afirma Maria Lucia Souza-Formigoni, da Escola Paulista de Medicina, em São Paulo. “Do ponto de vista da coordenação motora, estão bêbados. Um energético não é nada mais do que uma bela xícara de café expresso. O que tem de diferente de uma coca-cola?”

Maria Lucia estuda a relação dos energéticos com o consumo de bebidas alcoólicas desde 2004. Ao realizar testes com camundongos, a pesquisadora descobriu que as cobaias tratadas com energéticos se tornaram, com o passar do tempo, mais resistentes à ingestão de álcool. Esta conclusão levou imediatamente à seguinte hipótese: será que o consumo generalizado de energéticos pelos jovens estaria aumentando a tolerância ao álcool entre aqueles que bebem, fazendo-os beber mais? Indo além, será que jovens com baixa tolerância às bebidas alcoólicas, aqueles que não bebem porque ficam com sono, não estariam passando a consumir mais álcool do que antes graças aos energéticos, que têm o poder de mantê-los despertos? Se a hipótese for verdadeira, a conseqüência direta seria o aumento do consumo de bebida entre os jovens e, por tabela, o aumento nos casos de alcoolismo.

De fato, o consumo de bebidas alcoólicas na Região Sudeste subiu de 74,5% para 84,2% entre os jovens de 18 a 24 anos, entre 2001 e 2005. Mais preocupante: apesar de ilegal, o consumo entre os menores de idade, na faixa que vai dos 10 aos 17 anos, aumentou de 53,7% para 60,8%. Os dados são do Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil, de 2005, da Secretaria Nacional Antidrogas. Resta saber se este aumento está associado ao consumo de energéticos.

Neste momento, Maria Lucia procura realizar com voluntários o mesmo teste feito com cobaias. O objetivo é saber se o consumo de energéticos nos humanos também aumenta a tolerância ao consumo de álcool, o que levaria a um aumento no alcoolismo. “Não estou dizendo que isso vai acontecer”, diz Maria Lucia. “Mas a possibilidade existe”.


Referência:

Ferreira, S.E., M.T. Mello, S. Pompéia, & M.L.O.S. Formigoni. 2006. Effects of Energy Drink Ingestion on Alcohol Intoxication. Alcoholism, Clinical and Experimental Research 30(4):598-605.

Originalmente publicado em Época Online, em 12/09/2008.

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