Entre o surfe e a teoria final

Um físico americano que trocou a universidade pelas ondas do Havaí reaparece depois de dez anos e propõe uma solução para o maior mistério da ciência

Peter Moon


O californiano Antony Garrett Lisi passa o verão com a namorada, Crystal Baranyk, num trailer sem banheiro em Maui, no Havaí. Surfa todas as manhãs. No inverno, eles se mudam para uma casa no Lago Tahoe, em Sierra Nevada, onde Lisi, de 40 anos, passa as manhãs fazendo snowboard. Tanto no verão quanto no inverno, de tarde ele se senta no computador para exercitar os neurônios. Lisi não tem emprego fixo. Vive de bico desde 1999, quando se doutorou em Física pela Universidade da Califórnia, em San Diego. Sua obsessão é explorar a natureza em seu nível mais fundamental. Ele é um sujeito que recebe visitas calçando pantufas de urso, vai a festas fantasiado de coelho, diz não usar drogas nem beber. Balançou a comunidade de físicos em novembro de 2007, ao publicar um artigo intitulado “Uma Teoria de Todas as Coisas Excepcionalmente Simples”.


Lisi passa a manhã surfando em Maui. De tarde, busca a solução para os mistérios mais profundos da natureza

No artigo, Lisi afirma ter descoberto uma lei que unificaria todos os conhecimentos da física. Se tiver razão, sua descoberta representa uma conquista que Albert Einstein e cérebros comparáveis a ele buscam desde os anos 1920. Lisi propôs algo que, nos meios técnicos, é conhecido como teoria final. Trata-se de um conjunto de leis matemáticas capazes de reunir os dois pilares que sustentam a física moderna: a teoria da relatividade, que explica o comportamento de objetos como galáxias e estrelas, e a mecânica quântica, que descreve os fenômenos muito pequenos no interior do átomo. Lisi afirma ter realizado o maior sonho dos físicos: explicar, com uma única teoria, tudo o que acontece nos mundos do infinitamente grande e do infinitamente pequeno. “Deve existir uma teoria elegante para descrever a natureza”, disse Lisi por telefone. “Confio que estou no caminho certo, porque as peças se ajustam muito bem.”

Surfista desde a adolescência, Lisi se mudou para o Havaí em 1999, depois de se doutorar em San Diego, com uma tese sobre a hidrodinâmica da pele dos golfinhos. Na década seguinte, enquanto pegava ondas reais e imaginava hipóteses sobre ondas gravitacionais, um desconforto crescente invadiu os departamentos de física. “Em termos do desenvolvimento de novas teorias, foi o período mais lento em dois séculos”, diz o pesquisador Spencer Weart, do Instituto Americano de Física.

Desde 1980, uma teoria ganhava força para tentar explicar as leis do Universo. Conhecida como teoria das cordas, ela sustenta que tudo o que existe é fruto da vibração de minúsculas cordas que ninguém consegue enxergar nem imaginar. Graças a sua inegável beleza matemática – capaz de seduzir os cérebros dos físicos mais sofisticados –, a teoria das cordas arrebatou toda uma geração de cientistas. “Ela corre sozinha no páreo”, afirmou o prêmio Nobel de Física Steven Weinberg em 1999. Lisi, porém, sempre fez parte do grupo dos céticos em relação à teoria das cordas. “A matemática é interessante, mas fico imaginando o que tem a ver com a realidade. Até onde imagino, nada”, diz ele. Ter essa opinião em 1999, quando todos os departamentos de física eram chefiados por partidários das cordas, era o equivalente a cometer suicídio profissional. Lisi era, numa palavra, um herege em meio a um ambiente dominado essencialmente por dois tipos de físico: os apóstolos e os fiéis da teoria das cordas – uns pareciam admirá-la, os outros fingiam entendê-la.

Para explicar seu ceticismo, Lisi cita o exemplo do homem mais rico do mundo, Warren Buffett. “Buffett afirma não investir em negócios que não entende”, diz ele. “É um investidor sábio e sutil. Quando diz que não entende um negócio, faz um comentário sobre o próprio negócio, não sobre sua incapacidade de compreendê-lo. É assim que me sinto em relação às cordas. Por isso, decidi ir atrás da minha própria teoria.”

Após 30 anos de estudo, a teoria das cordas não passa disso mesmo – uma teoria. É um conjunto de idéias rebuscadas e de inegável beleza matemática. Mas não há um único fato capaz de comprová-la. Também – e reside aí outro fato tão sutil quanto favorável aos interesses de seus partidários – não há tecnologia capaz de desmenti-la. Uma teoria que não pode ser provada nem desmentida se equilibra sobre uma linha tênue entre a ciência e a metafísica. Não é exagero afirmar que a teoria das cordas se tornou um ato de fé para toda uma geração de físicos. Por isso, tem despertado tantos opositores em tempos recentes.

Um dos mais famosos é Lee Smolin, do Instituto Perimeter, no Canadá. Em 2006, ele desferiu seu ataque no livro The Trouble with Physics (O Problema da Física). Em junho de 2007, Smolin foi a uma conferência no México e ouviu a palestra de um desconhecido. Era Lisi. Smolin ficou impressionado. Nos meses seguintes, passou a afirmar que Lisi produzira “um dos modelos mais cativantes que já vi”. Chegou a oferecer uma vaga de pesquisador no Instituto Perimeter. Lisi recusou. Preferia continuar surfando. “Minha vida é um equilíbrio entre o surfe, a física, o amor e os amigos. Procuro não priorizar nenhum deles”, diz.

Depois de publicar seu artigo propondo unificar a física, esse exótico “físico-surfista” ganhou as manchetes. A revista Economist afirmou que a teoria de Lisi “pode ser testada e obter sucesso rapidamente ou falhar espetacularmente”. “Einstein num snowboard”, escreveu o The Sunday Times, de Londres. Assim como Lisi, Einstein não pertencia à academia. Trabalhava no escritório de patentes de Berna, na Suíça, quando publicou a sua teoria da relatividade restrita, em 1905. Einstein passou os últimos 30 anos de sua vida perseguindo, sem sucesso, uma teoria capaz de unir sua relatividade ao mundo da física quântica. “Einstein realizou muito mais na física do que eu jamais conseguirei. A comparação é totalmente injustificada”, diz Lisi.

Lisi segura uma estrutura complexa e cheia de simetrias, em alusão à sua teoria

A teoria de Lisi foi batizada com o nome teoria E8, pois se baseia num conceito matemático chamado E8, que descreve uma estrutura complexa e cheia de simetrias. Por comparação, um círculo tem um grau de simetria. Uma esfera tem três. O tipo de espaço descrito pelo E8 tem 248 graus de simetria. Trata-se, por isso, de uma das estruturas mais perfeitas que se conhecem. O E8 serve de base para a teoria de Lisi, pois todas as forças e partículas da relatividade e da mecânica quântica se combinam perfeitamente em seu interior. “Ele funciona perfeitamente”, diz Lisi.

Para saber se a teoria E8 é válida, ela precisa ser testada. A esperança de Lisi é o LHC, o poderoso acelerador de partículas recém-inaugurado em Genebra, na Suíça. A teoria E8 prevê a existência de 20 novas partículas, além das 200 que os físicos já conhecem hoje. Algumas poderão ser reveladas no LHC. “Se isso ocorrer, será bom para a teoria. Em caso contrário, continuarei procurando novas teorias”, diz Lisi. É assim que a ciência avança. “Minha tarefa é mais fácil que a de Barack Obama”, afirma. “Obama precisa achar uma solução para a bagunça em que George W. Bush transformou meu país. Não creio que haja respostas elegantes para isso.” 

Originalmente publicado em Época, em 07/11/2008.

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