Terra de gigantes I

Há 10 milhões de anos, o pantanal do Acre tinha alguns dos maiores animais que já viveram

Peter Moon

Aquele crânio devia ter um metro e meio de comprimento, por um metro de largura e outro metro de altura. Estranho saber que o purussauro era um jacaré. Seu focinho relativamente curto (se curto é um adjetivo aplicável a uma mandíbula de 1,50 metro...) fazia o bicho lembrar uma lagartixa mutante, fruto de testes nucleares no Pacífico, como foi o caso do inesquecível Godzilla, aquele monstro japonês horroroso de borracha dos tempos pré-animação digital. Alceu Ranzi, o paleontólogo gaúcho que havia trabalhado por 20 anos ali, no Laboratório de Paleontologia da Universidade Federal do Acre, em Rio Branco, me informou durante a visita que o Purussaurus brasiliensis foi o maior jacaré que existiu. Como seu nome indica, o primeiro fóssil foi achado, ainda no século XIX, nas barrancas do rio Purus, um afluente do Solimões, na Amazônia ocidental. 




Em sentido horário: Crânio do Purussauro, na Universidade Federal do Acre; purussauro devora uma tartaruga gigante; Phoberomys, uma capivara do tamanho de um búfalo; e o fóssil da Stupendemys, a maior das tartarugas.

O bicho viveu há 10 milhões de anos, quando a região do norte da Bolívia, Acre, parte de Rondônia, a Amazônia peruana e oeste do Amazonas formavam um imenso pantanal, uma versão em tamanho família do Pantanal matogrossense. O antigo Pantanal do Acre era, verdadeiramente, uma terra de gigantes, lar da maior tartaruga conhecida, de uma capivara do tamanho de um búfalo e de um bagre gigante. No topo desta mega cadeia alimentar residia o purussauro, com seus estimados 12 metros de comprimento e 8 toneladas - estimados, pois desde que a espécie foi descrita em 1892 por José Barbosa Rodrigues, em Manaus, vários crânios parciais foram achados no Brasil e no Peru, mas quase nada do resto do corpanzil da fera. 

O crânio de purussauro exposto numa redoma de acrílico no Acre pesa quase duas toneladas e é, até onde pude averiguar, o mais completo de todos. Foi achado nos anos 1980 por uma expedição conjunta brasileira-americana (há uma réplica no Museu de História Natural de Los Angeles).

Amazônia: presente e passado

Fui apresentado àquele crânio espetacular em julho de 1994, após passar 20 dias no meio da floresta amazônica de Rondônia, participando de uma expedição científica com Ranzi e o biólogo David Oren, do Museu Emílio Goeldi de Belém. David, americano naturalizado brasileiro, tinha uma hipótese. Ele achava que pelo menos uma das várias espécies de preguiças terrestres que habitaram a América do Sul, todas extintas, ainda sobreveria no Oeste da Amazônia. O mapinguari, fera lendária do imaginário de índios e caboclos da região, seria baseada em avistamentos desta preguiça terrestre, que David acreditava sobreviver isolada desde o fim da idade do gelo, há 13 mil anos. 

Achar uma preguiça terrestre viva no fim do século XX seria uma descoberta fenomenal. Passamos 20 dias andando no meio da floresta, na reserva dos índios Karitiana, distante 4 horas de carro de Porto Velho, mas não achamos nada. 

Foi uma pena. E também foi cansativo. Muito cansativo. Emagreci 7 quilos, andando horas e horas por dia, imundo, suado e perseguido por enxames de inofensivas - porém insuportáveis - abelhinhas pretas, que insistiam em pousar na minha camisa para absorver o sal do meu suor. Um dia, esbarrei de exaustão num coqueirinho e uma nuvem fina caiu sobre mim. Eram microscópicos micuins, carrapatinhos que se inseriram em meus poros às dezenas. Seu ciclo de reprodução dura 3 dias, ou seja, é o tempo que aqueles insetinhos insuportáveis ficam na pela da gente, coçando sem parar um instante. E não havia o que fazer, a não ser suportar a coceira até os bichos saírem sozinhos - um horror. 

A gente comia arroz, feijão e farinha, quando dava pra fazer fogo, ou simplesmente um punhado de farinha crua misturada com um gole de água do cantil, pra dar liga. A massa crescia, o estômago estufava e a fome passava. 

Éramos em oito homens, sendo dois pesquisadores (David e Alceu), dois técnicos do Museu de Belém, um cinegrafista e um repórter (moi) e dois índios karitiana, que serviam de guias. Dormiámos em redes com mosquiteiros. Numa noite, fomos acordados de madrugada pelos urros de uma onça que devia estar a menos de 100 metros, em algum lugar daquele breu inescrutável. A gente não via nada. Só ela, um gato musculoso de 80 kg, nos observava. Dionísio, um dos preparadores, um caboclo pequeno e troncudo, pulou de cueca da sua rede e saiu dando tiros a esmo, saltitando com uma lanterna no escuro da mata. Aquilo era coragem.

Noutra noite, nós, que estávamos acostumados a uma temperatura constante de 35 graus (a diferença é se estava chovendo ou não), acordamos tremendo de frio. Era uma “friagem” amazônica. Como disse, estávamos em julho, e todo ano alguma onda de frio polar particularmente poderosa avança pelo sul e sudeste do Brasil, mas mantém o impulso e atinge as bordas da floresta. A temperatura despenca. Num dia faz 35 graus. No outro, 15. Todo o mundo se ressente. A floresta fica quieta. Os insetos não zunem nem voam. Os pássaros não cantam. Alceu me diz que, na última idade do gelo, com a temperatura média anual em média 5 graus menor que a atual, não havia floresta, mas um mar cerrado pontilhado por ilhas de vegetação densa, os chamados “refúgios amazônicos”. 

Durante a idade do gelo, foi nestes refúgios, ilhas de calor e umidade, que a biodiversidade amazônica se manteve e diversificou - pelo menos esta era a teoria, que caiu em desuso semana passada, com a publicação de dois estudos na revista Science ("Quanto mais quente, melhor"). 

Os dois estudos mostram que a biodiversidade amazônica é muita antiga. Ela data de pelo menos 60 milhões de anos, e flutuou bastante neste intervalo de tempo, geralmente para cima. Ou seja, há 60 milhões de anos, ou há 10 milhões, momentos que o clima era mais quente e ao mesmo tempo úmido, a biodiversidade era maior, assim como o tamanho da bicharada.

Uma terra de bichos graúdos


Gryposuchus, um crocodilo gavial de 10 metros
Eu sofri com a friagem amazônica. Sabia que, naquela temperatura, a floresta não sobreviveria. Ainda assim, o que mais me impressionou naquele quase um mês de viagem e reportagens foi o crânio do purussauro. Como a biodiversidade atual seria maior hoje, se no passado havia um monstro como aquele nos rios da região? O maior jacaré vivo é o jacaré-açu ou jacaré negro, que atinge 5 metros e meia tonelada - um pequenino ao lado do seu primo grande do Pleistoceno, o purussauro. 

Vi mais uma vez o crânio do “puru” em 2000, quando voltei ao Acre para fazer outra reportagem. Sua lembrança nunca me abandonou. Nestes 16 anos desde que soube do purussauro pela primeira vez, um panorama da Amazônia foi surgindo em minha mente. Este cenário, que era povoado pelo maior jacaré de todos os tempos, foi sendo preenchido por outros seres fantásticos. Alguns eram antigas descobertas da ciência, mas que este jornalista que vos escreve desconhecia. Outros, são achados recentes. 

Uma descoberta dos anos 1970 é a maior tartaruga do mundo. Tartarugas são répteis antigos. Surgiram há mais de 215 milhões de anos, no período triássico. Salvo prova em contrário, elas evoluíram quase ao mesmo tempo com os primeiros dinossauros. As tartarugas foram bem sucedidas na luta pela sobrevivência, povoando os oceanos e os continentes. Mas a maior de todas as tartarugas não é antiga, mas recente, e vivia em água doce. Era “estupidamente” grande, como sugere seu nome, Stupendemys geographicus. Seu primeiro fóssil foi achado na Colômbia e descrito em 1976. Posteriormente, em 1993, novos exemplares foram achados no Acre. 

Há 10 milhões de anos, o lar da Stupendemys era o pantanal acreano. A Stupendemys tinha um casco de 3,5 metros de comprimento e pesava talvez duas toneladas (a maior tartaruga viva é a de casco-de-couro. Marinha, tem 2 metros e 700 kg). 

Ao contrário do que diz o ditado, no mundo selvagem tamanho é documento, sim! A Stupendemys era enorme, mas o purussauro, muito maior. Tartaruga gigante devia ser comida de purussauro. Mas não era a única. Como predador máximo daquele ecossistema, o purussauro tinha um cardápio variado para se fartar. O menu incluía capivara gigante. Capivaras, com 50 kg, são os maiores roedores vivos. Com 1,5 metro de altura andando de quatro, a Phoberomys pattersoni pesava 800 kg, o mesmo que um búfalo. Seu fóssil de 8 milhões de anos foi achado na Venezuela, em 2000.

A Phoberomys vivia no mesmo charco alagado do purussauro. Mas o purussauro não reinava sozinho na grande pantanal acreano. Quem ocupava o segundo lugar no topo da cadeia alimentar era um crocodilo de 10 metros de comprimento e duas toneladas, o Gryposuchus. Era um gavial, um crocodilo com focinho muito delgado, especializado em comer peixes. No passado, havia gaviais por toda a América do Sul e em outras partes do planeta. Hoje, só resta uma espécie, o gavial dos rios da Índia. 

Por mais impressinante que seja a biodiversidade amazônica, não posso deixar de ficar com a impressão de que o melhor já se foi, de que no passado a vida na maior floresta tropical do planeta era ainda mais cheia de superlativos, uma terra de gigantes.


+ crocodilos brasileiros extintos

Quem gostou da história do Purussauro, pode saber mais sobre os antigos jacarés e crocodilos brasileiros lendo:

Referências:

Barbosa Rodrigues, J. 1892. Les reptiles fossils de la Vallée de L’Amazone. Vellosia, Contribuições do Museu Botânico do Amazonas 2:41-60.

Bocquentin, J., & J. Melo. 2006. Stupendemys souzai sp. nov. (Pleurodira, Podocnemididae) from the Miocene-Pliocene of the Solimões Formation, Brazil. Revista Brasileira de Paleontologia 9(2):187-192.

Hoorn, C., J. Sevink, H. Hooghiemstra, F.P. Wesselingh, H. ter Steege, M.A. Bermudez, A. Mora, I. Sanmartín, A. Sanchez-Meseguer, C.L. Anderson, J.P. Figueiredo, C. Jaramillo, D. Riff, F.R. Negri, J. Lundberg, T. Stadler, T. Sarkinen, & A. Antonelli. 2010. Amazonia Through Time: Andean Uplift, Climate Change, Landscape Evolution, and Biodiversity. Science 330(6006):927-931.

Langston, W. 1965. Fossil crocodilians from Colombia and the Cenozoic history of the Crocodilia in South America. University of California Publications in Geological Sciences 52:1-169.

Jaramillo, C. 2010. Effects of Rapid Global Warming at the Paleocene-Eocene Boundary on Neotropical Vegetation. Science 330(6006):957-961.

Riff, D., & A. Orangel. 2008. The world's largest gharials Gryposuchus: Description of G. croizati n. sp. (Crocodylia, Gavialidae) from the Upper Miocene Urumaco Formation, Venezuela. Paläontologische Zeitschrift 82(2):178-195.

Sánchez-Villagra, M.R., A. Aguilera, & I. Horovitz. 2003. The anatomy of the world's largest extinct rodent. Science 301(5640):1708-1710.

Wood, R.C. 1976. Stupendemys geographicus, the world's largest turtle. Breviora 436:1-31.

Originalmente publicado em Época Online, em 17/11/2010.

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