Aventureiro inglês constrói barco com 12 mil garrafas PET

David de Rothschild quer cruzar o Pacífico e chamar a atenção para os lixões de plástico no oceano

Peter Moon


Rothschild, em São Francisco, com modelo do PlasTiki
Em 1997, o velejador americano Charles Moore participou de uma regata entre Los Angeles e Honolulu. Na volta, resolveu pegar um atalho. Moore saiu da rota principal para São Francisco, arriou as velas, acionou o motor de popa e rumou para o Giro do Pacífico Norte, uma vasta zona de calmaria em alto-mar, a meio caminho entre o Havaí e a Califórnia. Apesar de o Giro do Pacífico ter a área de dois Brasis, ele é evitado pelos navegantes. Lá quase não venta, e suas águas se movem lentamente em sentido horário, formando um imenso redemoinho. Se seu motor quebrasse, Moore correria o risco de navegar em círculos indefinidamente.

Para sua surpresa, Moore descobriu que esse era o destino do plástico descartado nas duas margens do Pacífico. Quando são jogados no oceano, os rejeitos ficam à deriva por meses ou anos. Levados pelas correntes, acabam no centro do Giro do Pacífico, onde engrossam um lixão flutuante com 100 milhões de toneladas de plástico, formado por um emaranhado de sacos, garrafas PET, seringas, escovas de dentes, canetas e copos descartáveis. “Na semana que levei para cruzar o Giro, não importa a hora do dia, havia lixo em todas as direções”, diz Moore. Ele foi o primeiro a alertar o mundo para a existência desses lixões oceânicos. Moore voltou com oceanógrafos ao local, para descobrir as causas e consequências daquela sopa que, sabe-se hoje, tem o tamanho do Estado do Pará.

Em 2006, Moore publicou suas conclusões na revista Natural History. “À medida que lia aquele artigo, eu me perguntava como é que ninguém nunca tinha ouvido falar daquilo antes”, diz o aventureiro inglês David Mayer de Rothschild. Em 2007, com 27 anos, Rothschild tornou-se o mais jovem britânico a atingir, esquiando, os polos Norte e Sul – o que lhe valeu o prêmio de Explorador Emergente da National Geographic Society. David de Rothschild é filho de Sir Evelyn de Rothschild, o patriarca do ramo britânico da mais famosa dinastia de banqueiros da Europa, fundada em Frankfurt, no século XVIII, por Mayer Amschel Rothschild.

Jovem, rico e solteiro, Rothschild, de 30 anos, não se imagina sucedendo ao pai na presidência do banco. Ele não tem carro. Só anda de bicicleta. Em sua casa, perto de Londres, Rothschild apenas consome eletricidade de fornecedores verdes. Ele também cria minhocas para consumir todo o seu lixo orgânico.

Rothschild fundou e dirige a Adventure Ecology, uma organização não governamental voltada para o desenvolvimento de projetos que aliam a aventura com a conscientização da proteção ao meio ambiente. Ao ler o artigo de Moore e ficar sabendo da existência do lixão flutuante do Pacífico, Rothschild descobriu qual seria sua próxima aventura. Decidiu construir um barco feito inteiramente com material reciclado e movido por energias renováveis, como a eólica e a solar. Seu objetivo é fazer a travessia do Pacífico, de São Francisco a Sydney, na Austrália. Rothschild quer mostrar a urgência de a humanidade reduzir seu padrão de consumo dos recursos naturais.



O Plastiki ao partir de San Francisco, em 20/03/2010
O barco se chama Plastiki, nome inspirado na expedição Kon-Tiki, do aventureiro norueguês Thor Heyerdal (1914-2002). Há 60 anos, Heyerdal estava convencido de que a Polinésia havia sido colonizada por índios sul-americanos. Para provar sua tese, Heyerdal construiu no Peru uma jangada chamada Kon-Tiki, o nome do deus Sol no idioma dos antigos incas. Em 1947, ele e cinco amigos se lançaram ao mar. Navegaram 8.000 quilômetros em 101 dias, até atingir as Ilhas Tuamotu, na Polinésia Francesa.

Heyerdal estava errado. Os índios americanos jamais colonizaram a Oceania. Mas sua façanha entrou para os anais da aventura. Rothschild quer entrar para o mesmo rol de heróis. Desde 2008, constrói em São Francisco um catamarã feito de material reciclado. Os dois cascos são s formados por 12 mil garrafas do tipo PET de 2 litros. Para manter a rigidez, as garrafas foram enchidas com gelo-seco. Além do casco, cada peça e corda, todas as portas e dobradiças são de plástico reciclável. O barco terá 60 pés (18 metros). A viagem do Plastiki deveria começar em 28 de abril, 62 anos após a partida de Heyerdal. Mas o Plastiki não ficou pronto a tempo, o que só deverá ocorrer no meio do ano. Rothschild não revela o valor do projeto. São milhões de dólares, bancados por patrocinadores como a HP e a empresa de cosméticos Kiehl’s.

A viagem do Plastiki durará pelo menos um ano. Serão 22.000 quilômetros de travessia, com direito a uma parada no Havaí, uma passada pelo lixão flutuante do Giro do Pacífico Norte e visitas às Ilhas Midway, Marshall, Tuvalu, Vanuatu e uma última escala na Nova Caledônia, antes do destino final, Sydney. Na travessia, Rothschild postará mensagens e vídeos em seu blog. Também responderá e-mails e fará videoconferências por satélite com alunos dos Estados Unidos.

O lixão do Giro do Pacífico Norte não é o único. Só no Pacífico há quatro. No Hemisfério Norte, um fica perto dos Estados Unidos, o outro na direção do Japão. No Hemisfério Sul, há um lixão perto do Chile e outro perto da Antártica. Há ainda um lixão no Atlântico Norte. Parece que o mesmo ocorre no Atlântico Sul e no Oceano Índico. Segundo o Programa Ambiental das Nações Unidas, a ingestão de dejetos flutuantes é responsável, anualmente, pela morte de 3 milhões de aves marinhas e mais de 100 mil mamíferos marinhos, como focas e lontras. Nas Ilhas Midway, a autópsia de centenas de aves revelou que a causa mortis foram pedaços de plástico que, engolidos, bloquearam o sistema digestivo dos animais.

Embora seja um triatleta experiente, Rothschild não sabe velejar. Foi apenas no mês passado que iniciou as aulas de vela na Baía de São Francisco. Parece temerário, e é mesmo! A travessia será cheia de riscos. Não se pode esquecer que o Plastiki é um barco cuja tecnologia nunca foi testada. Um dos riscos é a possibilidade de as garrafas do casco serem corroídas ao longo de meses de contato com a água do mar. Nesse caso, não haverá alternativa a não ser emitir um S.O.S. e abandonar o navio. “Essa é a aventura”, disse Rothschild em uma reportagem para a revista New Yorker. “Se fosse fácil, qualquer um já teria construído um barco de garrafas plásticas.”

Outro risco que a tripulação enfrenta é dar de cara com um ciclone, o equivalente no Pacífico aos furacões do Atlântico. Se Rothschild receber uma mensagem de rádio alertando para a formação de um ciclone, dificilmente o Plastiki conseguirá desviar seu curso com a rapidez necessária para fugir do perigo, pois sua velocidade máxima é de 10 nós (18 quilômetros por hora). Nesse caso, açoitado por ondas imensas no meio de um ciclone, Rothschild não poderá contar com um resgate. “Há situações em que a ignorância é uma bênção”, diz.


PS:
O Plastiki zarpou de San Francisco em 20 de março de 2010 e aportou em Sydney em 26 de julho.

Publicado originalmente em Época, em 17/04/2009.

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