Os precursores das baleias

Na era dos dinossauros, o rei dos mares eram répteis carnívoros de 15 metros. Agora se sabe quem eram suas presas: peixes de 10 metros de comprimento

Peter Moon

O maior ser vivo que habita ou habitou o planeta é a baleia-azul. Um macho pode atingir 33 metros de comprimento, quase tanto quanto um Airbus A320, e pesar 170 toneladas – o mesmo que 17 elefantes africanos dos grandes. Para sustentar seu corpanzil, a baleia-azul filtra água do mar, engolindo por dia mais de 3 toneladas de krill, um crustáceo microscópico. Filtrar a água é a forma de alimentação da maioria das baleias (orcas e cachalotes são carnívoros), assim como do maior dos peixes, o tubarão-baleia (20 metros), e da maior raia, a jamanta, com 7,5 metros de envergadura. Essa escala de grandeza apequena o maior predador dos mares, o tubarão-branco, de 6 metros. 


O peixe Bonnerichthys media 5 m a 160 milhões e anos
Mas nos períodos jurássico e cretáceo, entre 150 e 65 milhões de anos, o cenário era oposto. Enquanto os dinossauros reinavam nos continentes, o oceano era território de caça de répteis marinhos gigantes, os plesiossauros. A menor espécie conhecida tinha o tamanho de um tubarão-branco. A maior, escavada em 2007 no Arquipélago de Svalbard, no Ártico, media 15 metros e, quando viva, pesava 45 toneladas. O alimento dessas feras é conhecido desde 1874, quando foram achados no Kansas, no meio dos Estados Unidos (a região já foi fundo de mar), os restos de um peixe estranho, o Bonnerichthys gladius. Ele media 5 metros e tinha a cara coberta por uma carapaça óssea. De lá para cá, outras espécies foram achadas ao redor do mundo. Nenhuma deixou descendência. Seu registro acaba na extinção em massa que deu fim à era dos dinossauros.

Há mais de um século, os paleontólogos acreditam que aqueles peixes ossudos ocupavam o nicho alimentar dos grandes peixes predadores oceânicos atuais: o atum, o bonito, o espadarte e o marlim. O que faltava aos mares mesozoicos eram animais que ocupassem o nicho alimentar das baleias. Faltavam filtradores de plâncton e krill. Finalmente eles foram achados. E não têm nada de novo. São fósseis de cinco espécies de peixes gigantes escavados nos últimos 130 anos, que acumulavam pó nas gavetas dos museus de história natural em Londres e Nova York. Até o paleontólogo Matt Friedman, da Universidade de Oxford, resolver estudá-los à luz das novas tecnologias.

Os ossos tiveram de ser limpos. Fósseis frágeis ainda incrustados na rocha foram cuidadosamente retirados. O material que não pôde ser retirado de seu berço de calcário foi visualizado graças a imagens de tomografia computadorizada. O resultado foi uma nova compreensão dos grandes peixes do passado. O aspecto mais importante é que não se tratava de predadores. Eram todos filtradores de plâncton e krill. A lacuna na cadeia alimentar dos mares mesozoicos foi preenchida.

O Leedsichthys era o maior peixe do período jurássico. Superava os 10 m (aqui comparado a um mergulhador)

Outra consequência do estudo foi o aumento de tamanho dos peixes. Eles estão longe de ser completos. A descrição de cada espécie foi feita há décadas, baseada num punhado de ossos desconexos do crânio, das barbatanas ou da cauda. A nova análise mostrou que a estimativa das dimensões dos peixes estava errada. O fóssil do Bonnerichthys era de um animal jovem de 1 metro. O trabalho de Friedman, publicado na revista Science, sugere que um peixe adulto era cinco vezes maior. O maior dos peixes baleias, o Leedsichthys problematicus, foi achado nas minas de gesso de Leeds, Inglaterra. Seus fragmentos indicavam um animal de 5 metros. Friedman descobriu que media 9. O paleontólogo ainda estabeleceu o comprimento de outras duas espécies. O Martillichthys e o Asthenocormus tinham 2 metros.

A dimensão dos peixes baleias pode parecer ridícula se comparada aos 33 metros da baleia-azul. Mas os peixes baleias se agigantam quando comparados aos 10 centímetros, em média, dos peixes filtradores atuais. Dos milhares de espécies viventes, só o peixe-espátula do rio Mississippi destoa da curva. Ele é bem maior, mas raramente atinge os 2 metros.


O pior predador do mar era o pliossauro. Este tinha 15 m e 45 ton
Os peixes baleias habitaram os oceanos por 100 milhões de anos. Não sobreviveram à morte dos dinossauros e plesiossauros, há 65 milhões de anos. A explicação para o seu fim está na natureza daquela extinção. Se o evento foi causado por um asteroide que caiu no México ou uma megaerupção vulcânica na Índia, pouco importa. Basta conhecer suas consequências. Nuvens espessas bloquearam a luz do sol, interrompendo o processo de fotossíntese no planeta. Nos continentes, a flora morreu, levando consigo os dinos herbívoros e o tiranossauro rex, que os predava. No mar, a extinção começou pelo microscópico fitoplâncton, algas minúsculas que fazem fotossíntese e são a base da cadeia alimentar marinha. Sem fitoplâncton, não há zooplâncton – e fica decretada a morte por inanição dos peixes baleias. Como um castelo de cartas a ruir, a extinção escalou o topo da cadeia alimentar, levando os plesiossauros ao limbo geológico. A vida se esvaziou nos mares.

Dez milhões de anos depois, no atual Paquistão, um mamífero carnívoro do tamanho de um lobo, chamado Pakicetus, se atreveu a ir caçar no mar. Ele se saiu tão bem que seus descendentes foram, aos poucos, trocando a terra pela água. São os cetáceos: botos, golfinhos e baleias. Eles evoluíram para ocupar o nicho ecológico dos antigos peixes baleias.

Originalmente publicado em Época, em 19/02/2010

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